Era um jogo de criança, uma brincadeira tosca que perdia logo a graça.
Talvez o mundo estivesse mudando. Ou era ela, e nem percebia.
Deus, ela pensava. Seria bom se as coisas não mudassem? Se o relógio parasse, o entregador de jornais não mais passasse em casa, o sol não mais dormisse. Se tudo fosse como deve ser. Sem mudanças. Sem pensamentos. Sem reflexões.
Seria bom, ela concluiu. Não teria sentido, nem surpresas, nem crescimento no fim de mais um dia. Mas seria bom. Ela saberia lidar com tudo isso do mesmo jeito, provavelmente. Sempre.
Talvez num conto de fadas desse certo, na fairytale em que ela vivia quase constantemente. O medo de acordar e perceber que tudo tinha mudado. O que seria quando a lua chegasse? Como ela podia se preparar pro que não conhecia?
Aí estava o problema e a solução: não podia.
E talvez aí estivesse a graça desse jogo todo. Não saber o movimento do adversário e confiar nas cartas que tem em mãos. Isso seria suficiente. Isso seria suficiente? Só Deus sabia.
Deus, ela pedia. Duas vezes."